Polícia
Publicado em 13/03/2026 - 10h50min
A trajetória centenária do veterano mais antigo da Polícia Militar de Alagoas
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A trajetória centenária do veterano mais antigo da Polícia Militar de Alagoas
O olhar sereno e as mãos calejadas que acompanham o balanço de uma cadeira de madeira fazem parte da rotina tranquila de um homem que, talvez, não compreenda a dimensão de sua importância para a história da Polícia Militar de Alagoas. Ali reside o mais antigo policial vivo em nosso estado. Com uma trajetória centenária, o patriarca tornou-se um espelho dos valores da Corporação e perpetuou suas memórias às futuras gerações da família.

Com 102 anos, ele foi incorporado à Briosa em fevereiro de 1948. À época, o mundo ainda se recuperava dos impactos da 2ª Guerra Mundial, e a figura do militar era sinônimo de prestígio e respeito na sociedade. Desde então, foram 34 anos de serviços dedicados à Polícia Militar, sendo a maior parte do tempo na região que hoje corresponde à 3ª Companhia Independente. O veterano lembra que o serviço na época era bem diferente dos dias atuais.

“Eu destaquei por muito tempo em uma região conhecida como Uruba, lá em Atalaia. Antes, eu desempenhava a função de vaqueiro em uma fazenda naquela localidade. Daí, apareceu o convite para ser militar e eu aceitei, já que naquela época não existia concurso público”, relembrou.

Além de Atalaia, João Neri também foi lotado nas cidades de Boca da Mata, Capela e no povoado Santa Efigênia. Na época, o policiamento funcionava de maneira menos sofisticada e com uma estrutura física simples. Segundo o soldado, a delegacia e o batalhão dividiam o mesmo espaço físico e até as funções acabavam se misturando.

“A gente fazia o patrulhamento a cavalo, já que era uma região com muitas fazendas e vegetação; inclusive, o batalhão ficava em um local onde o acesso era bem difícil”.

Valores que vão além do tempo

As marcas naturais da idade não permitem que ele descreva com detalhes parte de suas mais de três décadas dedicadas ao serviço policial. Porém, o seu relato não é feito de verbos, mas de gestos. Foi o exemplo de João que moldou a criação de toda uma geração. Entre os que se inspiraram no patriarca está seu filho, Celso Lúcio, de 54 anos. Embora não tenha seguido a carreira militar, ele conta como a força e a coragem do veterano formaram o alicerce da família.

“Trabalho há 19 anos como motorista de ônibus e tenho muito orgulho da criação que meu pai me proporcionou. Hoje, dedico minha vida a retribuir a ele ao menos uma parte de tudo o que ele fez por mim”, relatou.

Chama a atenção o fato de que o período de João Neri na reserva remunerada já é mais longo do que a própria trajetória completa de serviço ativo da grande maioria dos policiais atuais. São 44 anos de inatividade, um intervalo de tempo capaz de causar, para muitos, o esquecimento das antigas tradições. No entanto, o filho do veterano revela a permanência da essência militar no cotidiano do pai. Ele narra como, mesmo após quatro décadas longe dos quartéis, o veterano ainda preserva valores da caserna, especialmente a rigidez da rotina.

“Meu pai sempre foi uma pessoa muito independente. Até os 80 anos, ele fazia suas coisas sozinho, mas com o avançar da idade foi preciso que passássemos a supervisioná-lo mais. Apesar disso, ele faz questão de manter atividades que fizeram parte de sua rotina, como o hábito de ir à feira todos os sábados. Embora ele não lembre ao certo qual é o dia da semana, sempre nos pergunta para saber se o sábado já chegou”, destacou o filho.

Além de Celso, João Neri tem outros três filhos, seis netos e dois bisnetos. Essa mesma herança de valores encontra eco em sua neta, Caroline Silva. Para ela, o avô não foi apenas uma figura de autoridade, mas alguém que a ajudou a construir sua própria identidade e independência.

“Hoje enxergo meu avô como um alicerce de força e coragem, servindo como o combustível para que eu desempenhasse meu papel de mãe e mulher”, enfatizou.

Homenagem em vida

O soldado mais antigo da Polícia Militar foi um dos homenageados em evento organizado pela Corporação em alusão ao Dia do Veterano nessa quinta-feira (12). Na ocasião, ele esteve acompanhado de seus familiares durante a exibição de um vídeo institucional protagonizado por ele, além de receber um certificado de agradecimento pelos serviços prestados à Instituição.

Além disso, o veterano possui acompanhamento especial realizado pela Diretoria de Proteção Social (DPS), núcleo responsável pela gestão dos inativos na PM-AL. Os cuidados são complementados por equipes médicas da Diretoria de Saúde, com acompanhamento clínico constante.
(Assessoria)
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