Polícia
Publicado em 12/03/2026 - 15h50min
Classificar PCC como terrorista pode dificultar troca de informações com EUA, diz MP
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Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Promotor Lincoln Gakiya falou nesta terça-feira (25) à CPI do Crime Organizado, no Congresso
O promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público de São Paulo (Gaeco/MP-SP), Lincoln Gakiya, afirmou em entrevista ao Estudio I, da GloboNews, que autoridades norte-americanas estão preocupadas não só com a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no tráfico internacional de drogas, mas principalmente no tráfico de fentanil (anestésico pode ser 50 vezes mais viciante que a heroína e 100 vezes mais forte do que a morfina) e armas para o Brasil.

Gakiya revelou ainda que a classificação da facção como organização terrorista pode dificultar ou impedir compartilhamento de informações de inteligência e de investigações feitas pelo Brasil e os Estados Unidos.

"A preocupação hoje é o grande número de integrantes do PCC que já estão atuando nos EUA, principalmente no tráfico de fentanil e no tráfico de armas para o Brasil. Essa é uma grande preocupação. Em segundo lugar, a preocupação deles é na atuação do PCC na lavagem de dinheiro em alguns estados americanos, principalmente, na Flórida. Vários integrantes da facção têm aplicado no mercado imobiliário na Flórida e na questão dos criptoativos, também procurando algumas exchanges [corretoras] americanas para fazer essa garimpagem nos EUA", disse.

"Eu tenho colaboração [em investigações] com o governo americano, com o FBI, o DEA, o Departamento de Estado. Nós tivemos no ano passado operação em Boston, relativo às informações que nós passamos para o FBI. Isso está em nível de cooperação policial. Se os EUA porventura classificarem o PCC como organização terrorista, ele passa a apresentar, segundo os EUA, um risco para o Estado americano e a classificação dessas informações, que hoje são trocadas e compartilhadas em nível de cooperação policial e com os ministérios públicos, podem subir a classificação para um critério confidencial e passem a ser de atribuição da CIA. E, com isso, a gente não consiga acesso a algum tipo de informação", completou.

O promotor investiga a facção criminosa há 20 anos, vive há mais de dez anos sob escolta policial 24 horas por dia por causa das ameaças de morte recorrentes que recebe. Ele é ameaçado pela facção ao menos desde 2005.

Lincoln Gakiya afirmou ainda que os Estados Unidos manifestaram preocupação com o aumento do número de integrantes do PCC no país, e a atuação da facção criminosa na lavagem de dinheiro em alguns estados americanos, principalmente, na Flórida.

PCC é mapeado em 28 países, se infiltra em presídios no exterior para recrutar novos membros e expande tráfico de drogas e armas
"Vários integrantes da facção têm aplicado no mercado imobiliário na Flórida e na questão dos criptoativos, também procurando algumas exchanges [corretoras] americanas para fazer essa garimpagem nos EUA", disse.

Classificação por organização terrorista
Gakiya se reuniu três vezes em menos de um ano em encontros com assessores diretos do secretário de estado dos EUA, Marco Rubio. Ele afirmou, no entanto, que os Estados Unidos não irão levar em conta a posição do governo brasileiro sobre classificar PCC como organização terrorista. "Eles queriam conhecer o funcionamento do PCC", disse o promotor.

Ele reforçou sua postura de que o PCC não é uma organização terrorista, mas, sim, uma organização criminosa transnacional com características de máfia.

"O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo", afirmou. O foco é puramente comercial: lucro e dominação territorial." O promotor criticou o fato de o discurso político ter se apropriado do tema, criando a falsa ideia de que a classificação de terrorismo traria endurecimento de penas ou intervenção estrangeira milagrosa.

PCC no mundo
Um levantamento obtido em primeira mão pela GloboNews e pelo g1 mostrou que o PCC se instalou em aos menos 28 países e se infiltrou em presídios no exterior para recrutar novos membros e expandir negócios com tráfico de drogas e armas, além da lavagem de dinheiro. No total, são 2.078 integrantes, a maioria dentro de prisões.

O relatório do Ministério Público de São Paulo tem sido apresentado a embaixadas e consulados fora do país para cooperação internacional no combate a crimes transnacionais em pelo menos quatro continentes.

Além da expansão para diferentes territórios, o que tem chamado a atenção das autoridades e investigadores brasileiros e também estrangeiros é o fato de os integrantes do PCC terem buscados outros países não só para viagens temporárias, mas também como moradia fixa e infiltração em cadeias, uma espécie de "marca registrada" da facção criminosa paulista.

Organização terrorista
Gakiya reforçou sua postura de que o PCC não é uma organização terrorista, mas, sim, uma organização criminosa transnacional com características de máfia.

"O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo", afirmou. O foco é puramente comercial: lucro e dominação territorial."
O promotor criticou o fato de o discurso político ter se apropriado do tema, criando a falsa ideia de que a classificação de terrorismo traria endurecimento de penas ou intervenção estrangeira milagrosa.

"O discurso político se apropriou desse tema. Então, parte da população, influenciada por uma corrente política, acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas ou na recuperação de ativos", disse. ""Outros acham que vai haver uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil para acabar com essas facções, o que, de fato, não é a realidade. (...) O que a gente precisa é de cooperação e atuação conjunta, não é meramente uma classificação e uma intervenção de ordem militar que vai auxiliar o combate."

Gakiya alertou que, em vez de ajudar, a classificação de terrorismo pode criar barreiras burocráticas e econômicas que hoje não existem.

Segundo ele, a troca de dados entre o Ministério Público brasileiro, o FBI e a DEA ocorre de forma fluida via cooperação policial. Se o PCC for rotulado como "grupo terrorista", essas informações poderiam subir para o nível "confidencial", passando à atribuição da CIA. Isso dificultaria o acesso direto dos investigadores brasileiros aos dados.

O promotor destacou que o Brasil poderia sofrer sanções econômicas e dificuldades de acesso a bancos multilaterais (como o Banco Mundial e o BID), além de abrir caminho para que os EUA autorizem ações militares fora de seu território para combater esses grupos.

Quando você classifica uma organização como terrorista, você autoriza o governo americano a praticar, a executar ações militares fora do estado americano, e você também pode abrir aí um flanco para que o Brasil sofra algum tipo de sanção econômica e mesmo nas relações internacionais", afirmou.

"Ao contrário do que possam imaginar as pessoas, não é a classificação do PCC ou do Comando Vermelho como organizações terroristas que vai nos auxiliar, nós que estamos aqui no combate na ponta, a melhorar ou a ter mais eficiência nas investigações e no combate ao crime organizado."

EUA discutem classificar PCC e CV como terroristas
O governo brasileiro tenta frear a discussão em curso nos Estados Unidos para classificar as facções Comando Vermelho e o Primeiro PCC como organizações terroristas, pelo menos, até a conversa presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington.

Segundo fontes da diplomacia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, pediu por telefone ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que não encaminhe ao Parlamento dos EUA a decisão de classificar PCC e CV como grupos terroristas.

A solicitação foi feita porque, se Rubio fizer isso, o Congresso norte-americano tem um prazo de sete dias para fazer a análise. Lincoln Gakiya entende que o PCC e o Comando Vermelho não se tratam de organizações terroristas e que se tratam de organizações criminosas transnacionais, com características até de máfia.

"O PCC é uma organização mafiosa, com atuação transnacional em mais de 28 países, pratica atos de natureza terrorista, como se viu em São Paulo nos ataques de 2006. Mas não tem objetivos políticos ou ideológicos, como os de ódio racial, de etnia ou religioso. O objetivo é de dominação territorial e lucro com negócios ilícitos", aponta o promotor de justiça.

O chanceler pediu que Rubio aguarde o encontro entre Lula e Trump, já que o governo brasileiro quer mostrar, na reunião, como tem atuado no combate ao crime organizado no país.

Lula pretende fazer uma visita oficial à Casa Branca, para se reunir com o presidente Donald Trump. A ideia inicial era que o encontro ocorresse neste mês de março, mas diante da dificuldade de agendas, uma data ainda não foi acertada.
(G1)
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