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Publicado em 20/04/2026 - 17h08min
Papagaio com deficiência perde parte do bico, cria técnica própria e passa a vencer rivais
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Papagaio com deficiência perde parte do bico, cria técnica própria e passa a vencer rivais
Bruce não tem a parte superior do bico. Para um kea — papagaio considerado um dos mais inteligentes do mundo —, isso deveria ser uma desvantagem severa: a espécie usa o bico para morder durante disputas de dominância.

Mas Bruce não só compensou a ausência como transformou a limitação em vantagem. Ele criou uma técnica de ataque completamente inédita, venceu todas as 36 disputas registradas por pesquisadores e se tornou o macho alfa do seu grupo.

O caso foi descrito em estudo publicado nesta segunda-feira (20) na revista científica "Current Biology".

A pesquisa foi conduzida por Alexander Grabham, da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, onde Bruce vive em uma reserva.

A técnica desenvolvida por Bruce foi batizada pelos pesquisadores de "esgrima de bico".

Ela é simples de entender: como o bichinho não tem a parte de cima do bico, a parte de baixo dele fica exposta.

É com ela que ele empurra e bate nos rivais durante as brigas — um movimento que os outros keas não têm como copiar, porque, em quem tem o bico completo, a parte de cima cobre a de baixo e impede esse tipo de ataque.

Assim, Bruce pode atacar de perto, esticando o pescoço, ou de longe, correndo ou pulando em direção ao rival.

E em cerca de três quartos das vezes, o movimento fez o adversário recuar na hora, dizem os pesquisadores.

"O golpe de Bruce é certamente uma verdadeira inovação, porque ele não está apenas copiando o que outros keas normalmente fazem com seus bicos intactos", disse Grabham ao g1.
"Comparado aos ataques de bico de keas com bicos intactos, o golpe de Bruce atinge uma gama mais ampla de áreas do corpo, de diferentes ângulos."

Dominante e menos estressado
O que torna o caso ainda mais notável, segundo os pesquisadores, é que Bruce chegou ao topo da hierarquia de seu grupo sem formar alianças, algo raro até mesmo em espécies altamente sociais.

Em primatas, por exemplo, animais com deficiências físicas geralmente precisam de aliados para manter uma posição de liderança.

"A dominância de Bruce sem aliados é o primeiro caso publicado disso em qualquer animal com deficiência", explicou Grabham ao g1.

"Como os primatas também são inteligentes e socialmente complexos, isso indica que o golpe de Bruce é uma técnica muito eficaz, que seus 11 companheiros ainda não conseguiram contra-atacar de forma eficiente."

No total, os pesquisadores registraram 227 brigas envolvendo 9 machos e 3 fêmeas do grupo. Bruce participou de 36 delas e venceu todas.

E a posição de líder trouxe benefícios concretos para Bruce. Ele tem prioridade nos comedouros, por exemplo, e é o único macho a receber cuidados de higiene — como limpeza de penas e bico — de outros machos do grupo.

Os pesquisadores também mediram os níveis de um hormônio ligado ao estresse nas fezes dos animais. Bruce apresentou os menores níveis do grupo — mesmo sendo o líder, é também o mais tranquilo.


"Ele consegue conduzir sua vida diária com confiança", diz Grabham. "Por exemplo, ele pode ir aos seus lugares habituais sem ser afastado, pode acessar a comida que quer sem disputas e recebe cuidados de outros keas."

O pesquisador afirma ainda que os resultados levantam uma questão que vai além da biologia: quando intervir em animais com deficiência pode fazer mais mal do que bem?

"No caso de Bruce, uma intervenção bem-intencionada com prótese, como um bico superior artificial, teria consequências diretas para seu status no grupo e, por extensão, para seus níveis de estresse. Nossos achados destacam a importância de considerar se um animal com deficiência já encontrou sua própria solução."
(G1)
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