
Inteligência Artificial: Como saber se sua empresa precisa realmente dela?
A Inteligência Artificial deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade no mundo dos negócios. Mas, diante da enxurrada de ferramentas disponíveis no mercado, uma pergunta ainda gera dúvidas entre empresários e gestores: como saber se a empresa realmente precisa de Inteligência Artificial?
Segundo o executivo especialista em IA aplicada a negócios, Marcos Betiati, a maioria das empresas começa pelo caminho errado. "Quando se fala em Inteligência Artificial, muita gente pensa imediatamente em ChatGPT, Gemini ou Claude. São ferramentas importantes, mas representam apenas uma pequena parte do que a IA pode fazer dentro de uma organização", explica.
De acordo com ele, a verdadeira transformação acontece quando a tecnologia passa a atuar na análise de dados e na antecipação de cenários. "A IA pode identificar quais clientes estão próximos de cancelar contratos, prever queda nas vendas, apontar gargalos operacionais antes que se tornem problemas e até indicar onde a empresa está perdendo dinheiro sem perceber", afirma.
Foi assim em um caso real conduzido por ele. "Em uma operação de serviços, identifiquei que boa parte do faturamento simplesmente não estava sendo capturada por falhas nos processos - não era falta de cliente, era dinheiro escapando dentro de casa. Ao reorganizar a operação e aplicar inteligência nos pontos certos, geramos um salto expressivo no resultado em um ano", conta. Para ele, esse tipo de ganho raramente vem da ferramenta em si: "Vem de entender primeiro negócio e usar a tecnologia onde ela realmente faz diferença."
Mas antes de investir em tecnologia, Betiati defende uma etapa que costuma ser ignorada: o diagnóstico e análise profunda do negócio.
"Não adianta comprar licenças de ferramentas de IA e sair distribuindo a ferramentas para toda a equipe, sem entender onde estão os desafios reais da empresa. Sem um diagnóstico e uma análise adequada, a chance de desperdiçar recursos é enorme", alerta o executivo.
Sinais de que a empresa está pronta para IA
Para Marcos Betiati, alguns sinais indicam que a adoção da Inteligência Artificial pode trazer ganhos imediatos: grande volume de informações sendo geradas diariamente, processos repetitivos que consomem tempo das equipes, dificuldade para prever resultados e tomar decisões com base em dados.
Perda de clientes sem uma explicação clara ou o crescimento da operação sem aumento proporcional da lucratividade também são apontados por ele como gargalos claros de que a IA pode resolver.
Por outro lado, empresas que ainda não possuem processos minimamente organizados ou dados confiáveis podem precisar estruturar a operação antes de avançar para projetos mais robustos de IA.
O maior desafio não é tecnológico
Apesar da discussão normalmente girar em torno das ferramentas, Betiati destaca que o principal obstáculo para a adoção da Inteligência Artificial é humano.
"É absolutamente natural que as equipes sintam receio. Quando uma nova tecnologia chega, as pessoas se perguntam qual vai ser o seu lugar daqui pra frente - e ignorar isso é o erro mais comum", pondera. Para ele, o papel da liderança é justamente acolher essa insegurança e conduzir a transição trazendo as pessoas junto, não atropelando-as.
"A tecnologia evolui rapidamente, mas as pessoas precisam ser preparadas para essa transformação. Implementar IA exige liderança, comunicação e gestão da mudança. A empresa que trata a Inteligência Artificial apenas como tecnologia corre o risco de enfrentar rejeição interna, comprometer os resultados e ficar muito para trás em relação às suas concorrências", afirma.
Por onde começar
A recomendação do especialista é simples: antes de investir em qualquer plataforma, o empresário deve mapear seus principais desafios. "O primeiro passo não é perguntar qual a melhor IA do momento e sair assinando uma licença. Mas sim, identificar onde estão os gargalos, quais processos precisam ser melhorados e quais decisões poderiam ser tomadas com mais inteligência. Só depois disso faz sentido definir qual tecnologia utilizar."
Esse mapeamento, segundo ele, pode ser feito internamente pela própria gestão ou com o apoio de um especialista - o importante é não pular essa etapa. "Um olhar externo costuma enxergar em semanas o que a operação, no dia a dia, não percebe há anos", observa.
Nesse cenário surge uma função cada vez mais valorizada no mercado: o Executivo de IA. O profissional atua como ponte entre tecnologia, estratégia e pessoas, identificando oportunidades de aplicação da Inteligência Artificial e conduzindo a adaptação das equipes durante o processo.
"Adotar IA é uma decisão de gestão e governança. A tecnologia é importante, mas o diferencial está em saber onde aplicá-la e como conduzir as pessoas nessa mudança, que está sendo muito radical em comparação ao que já vivemos até esse momento", conclui Betiati.