
MPF realiza mais uma escuta direta de atingidos pela Braskem em Maceió
O Ministério Público Federal (MPF) em Alagoas realizou a VI edição do projeto Vozes da Mundaú, iniciativa que mantém as portas da instituição abertas para ouvir, acolher e encaminhar demandas de moradores atingidos pela exploração de sal-gema em Maceió. O encontro ocorreu na sede do MPF e contou com a participação das procuradoras da República Júlia Cadete, Juliana Câmara e Roberta Bomfim.
Ao longo da tarde, representantes de comunidades dos bairros Bom Parto, Flexal e Chã de Bebedouro apresentaram relatos sobre dificuldades enfrentadas no contexto pós-deslocamento, na implementação de ações de reparação e nas controvertidas informações que são disseminadas nos territórios, causando impactos na saúde dos moradores.
Sentimento de isolamento e acesso a programas
Moradores do bairro Bom Parto relataram sensação de isolamento em relação às ações desenvolvidas no âmbito das medidas de compensação e mitigação. Segundo os participantes, há dificuldades de acesso a iniciativas vinculadas a programas como o PAS e o “Nosso Chão, Nossa História”, além de dificuldades na comunicação sobre eventos e atividades.
As procuradoras informaram que irão apurar as situações relatadas junto às instituições parceiras responsáveis.
Ainda durante o encontro, foi esclarecido que as oficinas comunitárias, interrompidas ao final de 2025, estão em fase de articulação para retomada. Uma reunião com as comunidades está prevista para o dia 18 de maio, quando serão discutidos os próximos passos e possíveis ajustes nas atividades.
Pesca, obras e participação social no Flexal
WhatsApp Image 2026-04-30 at 14.12.27 (1).jpegRepresentantes de Bebedouro e da região do Flexal trouxeram demandas relacionadas à atividade pesqueira, especialmente quanto à necessidade de implementação de medidas de proteção de renda em períodos de alteração ambiental, como o seguro-defeso em épocas de chuva. Na ocasião foi explicado que o tema já foi autuado no MPF e distribuído para o núcleo de tutela coletiva da Procuradoria da República em Alagoas, considerando que não tem relação exclusiva com o Caso Braskem.
Também foram levantadas questões sobre a execução de obras de infraestrutura, como iluminação pública, saneamento e intervenções urbanas ainda não concluídas. Moradores relataram problemas como postes de iluminação sem funcionamento, paralisação de obras e acúmulo de resíduos.
Outro ponto destacado foi a definição de critérios para ocupação de equipamentos públicos em implantação, como boxes comerciais e centros de apoio à pesca. Os participantes defenderam maior transparência e prioridade para moradores e trabalhadores locais, além da ampliação da participação comunitária nos espaços de governança.
Impactos na renda e na saúde mental
WhatsApp Image 2026-04-30 at 14.12.27.jpegEm outro momento houve relatos sobre perdas econômicas decorrentes da desestruturação das redes comunitárias. Uma moradora, deslocada do Bebedouro e atualmente moradora do bairro do Clima Bom, destacou a interrupção de sua atividade com artesanato pedagógico após a realocação, o que comprometeu sua fonte de renda e afetou sua rotina familiar, incluindo o acompanhamento de um filho com transtorno do espectro autista.
As procuradoras comprometeram-se a articular essas demandas com iniciativas já em prática de apoio psicossocial e programas voltados ao empreendedorismo, de modo a contribuir para a reconstrução de vínculos e o alcance efetivo das medidas.
Infraestrutura e reassentamento
WhatsApp Image 2026-04-30 at 14.15.05.jpegMoradoras das Quebradas — a encosta ocupada entre o Flexal de Cima e a Chã de Bebedouro — apresentaram demandas relacionadas à infraestrutura, com destaque para problemas de saneamento, acúmulo de lixo, presença de vetores e riscos à saúde. A área que deve receber investimentos estruturais da Prefeitura com recursos do acordo com a Braskem, tem seu nível de vulnerabilidade aumentado no período chuvoso. Ponto que foi destacado pela comunidade, em razão da chegada da estação de chuvas.
Também foram discutidas questões ligadas à condição dos moradores da encosta para viabilização das intervenções estruturantes, incluindo a necessidade de revisão de critérios e a compatibilização entre o número de imóveis afetados e as unidades habitacionais futuramente disponíveis no residencial que será construído no Flexal.
As procuradoras compreenderam as angústias apresentadas e comprometeram-se a promover uma reunião ampliada com os diversos órgãos municipais para que todas as dúvidas sejam sanadas.
Escuta como instrumento de atuação
O projeto Vozes da Mundaú é parte de mais uma estratégia do MPF de fortalecer a escuta ativa das populações atingidas, contribuindo para uma atuação mais próxima das comunidades. Os encontros são realizados com número reduzido de participantes, mediante agendamento prévio, o que permite aprofundar os relatos e qualificar os encaminhamentos.
A iniciativa reafirma o compromisso do MPF com a promoção de direitos, a transparência e a participação social nos processos de reparação em curso em Maceió.