Blog Elza Amaral
Publicado em 29/11/2016 - 16h35min
Nunca foi tão difícil ser humano
Como qualquer ser humano, temos limites físicos, emocionais, mentais.
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Mesmo com o carro comprado em dezenas de parcelas, continua acordando cedo como antes, quando ia ao trabalho de ônibus. Afinal de contas, milhares de veículos em ruas estreitas, trânsito mal planejado, infraestrutura deficiente, tomam horas no trânsito, aumentam a tensão e a ansiedade pra evitar atraso no primeiro compromisso do dia, a chegada dos filhos à escola.

Uma batalha foi vencida, a outra agora é chegar ao trabalho e se não tem estacionamento próprio na empresa, a adrenalina foca em achar uma vaga nos estacionamentos pagos ou mesmo na rua. Missão quase impossível, porque pode significar um trabalho quase de detetive ou num golpe de sorte dar de cara com uma vaga. Almoçar em casa, nem pensar, já foi o tempo em que se almoçava com a família, no intervalo do meio dia . Isso faz parte do passado e não adianta ser saudosista! O máximo que vai dar condições de fazer é correr de volta para a escola das crianças, deixar em casa e seguir voando para o trabalho, vai dar tempo de comer qualquer coisa na lanchonete da esquina ou engolir um almoço dividido com os colegas pra ficar mais barato.

A digestão vai rolando enquanto começa o turno da tarde, corrido, tenso, na cabeça já começam a martelar os compromissos do outro dia com a casa, família, as tarefas da escola que pode ser também levar material para o dia do índio, da ecologia, festas juninas. E a cabeça trabalha a mil por hora já pensando onde comprar, o que comprar. Mas hoje ainda não terminou. Desliga do amanhã e foca no hoje. Um olho esticado nas notícias sobre economia só piora o dia, fecha a notícia, melhor ler rapidamente as notícias da política, putz! Piorou mais ainda! E as páginas de polícia? Na verdade economia, política e polícia estão se confundindo e interagindo entre si!

Uma dorzinha incômoda e teimosa nas costas lembra que é necessário marcar médico, as varizes também estão a incomodar. Aciona o plano de saúde carooo e pago com sacrifício. A atendente no médico credenciado diz que só tem vaga daqui a 3 meses! Não adianta reclamar, nem argumentar, a voz do outro lado apenas diz “posso ajudar em mais alguma coisa senhora?”. Consulta marcada acrescida por noventa dias de sofrimento.

Mais uma olhadinha nos sites de notícias, seção vida saudável é a melhor opção para evitar o stress. E aí aparece a pergunta: Você já malhou hoje? Fique sarada em trinta dias com a dieta da chuva! Perca 5 quilos em uma semana coma dieta da maça, da ervilha, do abacaxi! Vida corrida prejudica a saúde. Trânsito intenso causa tensão e mal estar. Faça sua própria comida em casa e tenha mais saúde! Melhor fechar essa seção também. E aí começa a cobrança interior tenho de malhar, tenho de comer melhor, tenho de relaxar, não posso engordar, tenho de andar na beleza padrão, no cabelo chapinha, relaxado, escova permanente, seja que nome se dá. Cobrança, cobrança, cobrança!

Não! Para o mundo que eu quero descer! Vou malhar porque é bom pra saúde e não priorizo o corpão, isso é consequência. Isso se eu tiver um corpão! Vou lavar o cabelo e pentear do jeito que gosto e que fique agradável pra mim e ideal para o meu dia a dia. Vou comer saudável o que eu gosto e não o cardápio da moda. E quando bater aquela vontade de comer um brigadeiro, um pudim de leite, um delicioso bolo de chocolate, não pensarei duas vezes, vou comer sim!

Pressão já basta o dia a dia nas ruas, no trabalho, no trânsito, na competitividade profissional, nas reuniões, nas tarefas externas, na atenção à família, nas notícias cada vez menos favoráveis. Não preciso tratar a mim mesma como se estivesse num moedor de carne!

Como qualquer ser humano, temos limites físicos, emocionais, mentais. Só precisamos provar que somos “o cara” quando estamos bem com nós mesmos.

*Elza Amaral é jornalista
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