
Combate a facções, ferrovias e mais: os temas em comum nas propostas dos presidenciáveis
Adversários na eleição presidencial de 2026, os seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto apresentam propostas em comum para temas detalhados em seus planos de governo.
Tanto o presidente Lula (PT) quanto os adversários da oposição, Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (NOVO), defendem propostas iguais ou similares em cinco assuntos nos planos de governo enviados à Justiça Eleitoral.
Veja quais são os temas:
Expansão do ensino em tempo integral
Prontuário eletrônico no SUS
Expandir a malha ferroviária
Universalização do saneamento básico
Combate as facções criminosas
Expansão do ensino em tempo integral
Dados do Censo Escolar divulgados neste ano pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) indicam que o Brasil tem 26% de matrículas em tempo integral na educação básica. A divisão por etapa de ensino é de 36% na educação infantil, de 21% a 24% no ensino fundamental (entre os anos iniciais e os finais) e de 27% no ensino médio.
Veja as propostas dos candidatos:
Lula: define como "absoluta prioridade" em um eventual novo mandato a expansão da educação em tempo integral. Cita apoio a municípios com o Novo PAC como ação feita no atual governo e "a expectativa é que a ampliação dessa modalidade se acelere".
Flávio Bolsonaro: plano de governo diz apoiar a escola em tempo integral para as crianças terem "mais tempo de aprendizado, reforço e atividades formativas". Também cita creche em tempo integral. Promete, ainda, manter escolas abertas nas férias para oferecer "esporte, arte, música e literatura" aos alunos "em vez de deixar a criança ociosa".
Ronaldo Caiado: promete priorizar a escola de tempo integral com "esporte, cultura, projeto de vida, ciência e apoio aos estudantes, não mera permanência física". Ampliação de vagas será priorizada na educação infantil, anos finais e ensino médio "em territórios vulneráveis".
Renan Santos: proposta defende seguir "o melhor exemplo de elevação da educação básica" ao tratar do Ceará, que possui quase 90% das escolas públicas com ensino em tempo integral. Será criado um grupo de trabalho para implementar o exemplo ao nível nacional, conforme o documento.
Augusto Cury: define em seu programa de governo que "não existe nação desenvolvida sem educação de excelência em tempo integral". Seu projeto prevê um "clube de desenvolvimento humano" nestas escolas com espaço para debates, teatro, música, esportes, eventos culturais, ambientes de convivência e interação e "práticas de elogio mútuo".
Romeu Zema: ex-governador de Minas Gerais defende ampliar a oferta de ensino integral com financiamento e parcerias com organizações privadas, "condicionadas a critérios de qualidade e resultados educacionais".
Prontuário eletrônico no SUS
A expansão online dos sistemas do Sistema Único de Saúde (SUS) ocorreu ao longo dos últimos anos: o prontuário eletrônico existe desde 2016 entre os pacientes da atenção básica; em 2025, surgiu o Prontuário Único do Paciente. Os médicos do SUS têm acesso aos prontuários e históricos de forma online, enquanto o paciente pode acessar pelo aplicativo Meu SUS. No entanto, os candidatos reforçam fazer a integração entre sistemas e ampliar o acesso da população -- e da rede privada.
Veja as propostas dos candidatos:
Lula: defende consolidar um prontuário único para o cidadão atendido no Sistema Único de Saúde. A proposta será feita pela Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) com integração dos sistemas federal e dos estados, segundo o plano de governo enviado ao TSE.
Flávio Bolsonaro: proposta prevê implantar um prontuário eletrônico único que seja vinculado ao CPF das pessoas e ao sistema gov.br e acessível também pela rede privada. Segundo o documento, será possível acompanhar histórico de consultas, exames, vacinas e prescrições.
Ronaldo Caiado: defende como meta implantar um "SUS Digital" com o histórico clínico digital para atendimentos públicos e privados até 2030. Projeto pretende reunir "vacinas, consultas, exames, receitas, resultados, posição na fila, alertas e remarcação" de procedimentos em uma mesma plataforma, além de telemedicina.
Renan Santos: propõe criar um sistema digital de saúde com telemedicina, diagnósticos por meio de Inteligência Artificial, monitoramento clínico e histórico permanente dos cidadãos. Tem como modelo um sistema de El Salvador. Será criado, segundo a proposta, o Prontuário Eletrônico Nacional Interoperável (Pronto) para reunir todas as informações de saúde.
Augusto Cury: presidenciável coloca como prioridade "fortalecer a gestão" do SUS com a digitalização dos prontuários e integração dos sistemas. Ele cita a necessidade de reduzir filas, "melhoria da eficiência administrativa" e promete definir indicadores para aprimorar os serviços prestados pelo sistema de saúde.
Romeu Zema: pretende criar o histórico clínico em um registro nacional de saúde online e unificado para centralizar o histórico do paciente. Também prevê integração entre sistemas público e privado de atendimento e inclui acesso à internet em todas as unidades públicas de saúde do país para atualizar os sistemas e oferecer telemedicina.
Expandir a malha ferroviária
A malha ferroviária do Brasil representa cerca de 5% do escoamento da produção no país, enquanto as rodovias representam 75%, por exemplo. Projetos para ampliar esta participação já estão em andamento. Presidenciáveis defendem acelerar acordos já fechados e ampliar novos negócios com projetos próprios ou por meio de concessões.
Veja as propostas dos candidatos:
Lula: cita o Novo PAC para, entre outras ações, intensificar as concessões de ferrovias, tanto projetos novos quanto de contratos que já existem. Não cita exemplos de quais projetos são prioritários neste tema.
Flávio Bolsonaro: plano de governo promete investir R$ 900 bilhões em quatro anos no setor de logística e transporte, com as ferrovias dentro do projeto. Cita, entre outros, especificamente a Ferrogrão (entre Pará e Mato Grosso) e a Transnordestina (entre Piauí e Ceará).
Ronaldo Caiado: candidato cita "organizar ferrovias" e priorizar obras estruturantes como a Ferrogrão, Transnordestina, Ferrovia Norte-Sul, a Fiol (leste-oeste, da Bahia até Goiás), entre outras. Projeto prevê concessões para a iniciativa privada.
Renan Santos: projeta a expansão da malha ferroviária com "mobilização do capital privado" com concessões e um novo regime de autorização ferroviária (que não é detalhado). Meta mínima de aumentar em 10 mil km a malha ferroviária ao finalizar Ferrogrão, Fiol e Ferrovia Transoceânica, que começa na Bahia e cruza até o Peru, ligando os oceanos Atlântico e Pacífico.
Augusto Cury: proposta para modernização da logística nacional inclui as ferrovias como parte da "espinha dorsal da economia brasileira". Candidato propõe criar cinco corredores estratégicos de exportação no Ceará, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Romeu Zema: programa de governo defende ampliar e modernizar a malha ferroviária e cita Ferrogrão, Fiol e novas concessões entre as prioridades para "reduzir os custos do transporte". Cita, também, a integração com os portos e rodovias para escoar a produção.
Ampliar a oferta de saneamento básico
Tema com maior convergência entre a maior parte dos candidatos. País tem hoje 321 dos 5.571 municípios (6%) dentro da meta de universalização do acesso ao esgoto, enquanto 3.774 cidades (68%) definiram metas para o esgotamento sanitário, conforme dados da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon). O país registrou recorde de investimentos no setor desde a criação do Marco Legal do Saneamento, em 2018. Meta é universalizar o acesso até 2033.
Veja as propostas dos candidatos:
Lula: plano de governo fala em uma "reforma urbana" com saneamento e em ampliar os investimentos em saneamento rural ecológico. Cita ações do Novo PAC feitas na atual gestão que serão mantidas em caso de novo mandato.
Flávio Bolsonaro: senador cita o Marco Legal do Saneamento, sancionado em 2020 por Jair Bolsonaro, como motor de investimento privado na área. Defende sua "plena aplicação" e fala em "acelerar as concessões e parcerias para universalizar o acesso à água tratada e ao esgoto".
Ronaldo Caiado: defende parcerias público-privadas para leilões que ampliem o acesso a saneamento básico. Promete cumprir e acelerar as metas do Marco Legal do Saneamento para universalizar o acesso até 2033. Também fala em tratar resíduos sólidos e drenagem urbana.
Renan Santos: candidato condiciona a liberação de recursos a municípios em caso de cumprimento de metas, entre as quais figura a ampliação do acesso a saneamento básico. Tema integra o projeto de Lei de Responsabilidade Gerencial, que visa diminuir a quantidade de municípios no país.
Augusto Cury: promete cumprir o Marco Legal do Saneamento Básico como "prioridade nacional". Inclui o tema dentro da urbanização e infraestrutura no projeto "Comunidade 4.0" junto de água potável, drenagem, pavimentação, contenção de encostas, prevenção de enchentes, iluminação pública, entre outros.
Romeu Zema: defende "consolidar" a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) como coordenadora nacional da regulação do saneamento para "fortalecer a harmonização" e ter efetividade para cumprir o Novo Marco de Saneamento.
Combate as facções criminosas
Enquanto o saneamento é o tema com mais convergência, o combate às facções criminosas é o que tem menos. A presença dos grupos criminosos atingiu 70 milhões de brasileiros, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Na Amazônia Legal, quase metade dos municípios tem a presença de facções criminosas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os presidenciáveis concordam que é necessário enfrentar o crime organizado, mas apresentam abordagens que variam entre si.
Veja as propostas dos candidatos:
Lula: cita a Lei Antifacção, sancionada em 2026, como ação do atual governo e defende manter a "estratégia de asfixia financeira do crime organizado" com ações articuladas no combate às facções. Promete liderar "procedimentos jurídicos mais ágeis" para punir criminosos e criar medidas rígidas para "barrar candidaturas de indivíduos ligados ao crime organizado".
Flávio Bolsonaro: promete declarar facções criminosas e milícias como organizações narcoterroristas, combater com "força, inteligência e integração" e bloquear ativos para desarticular a lavagem de dinheiro "que sustenta as facções". Fala que as forças de segurança vão abater "bandido armado com fuzil".
Ronaldo Caiado: candidato defende criar lei para classificar as facções e milícias como "terroristas domésticos" e usar as Forças Armadas no combate aos grupos. Pretende criar um conselho para combater o terrorismo doméstico com participação dos estados e um sistema integrado para facilitar "o asfixiamento financeiro" do crime.
Renan Santos: propõe declarar "uma grande guerra ao crime" com o Direito Penal do Inimigo (DPI), uma série de decretos de Estados de Defesa em áreas dominadas pelas facções. Promete retirar os direitos políticos, civis e restringir a liberdade de associados às facções; banir o uso de símbolos dos grupos; a dissolução de entidades infiltradas pelo crime; e a "inversão do ônus da prova" no confisco de bens — ou seja, presumir que é ilícito até comprovação contrária.
Augusto Cury: considera as organizações criminosas "uma das maiores ameaças do Estado brasileiro" e defende implementar de forma "efetiva" o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) para combatê-las. Fala em compartilhar inteligência e recursos da União com Estados e Municípios para atuar "não apenas no confronto físico, mas no corte das vias financeiras que sustentam as facções".
Romeu Zema: defende enquadrar como terroristas as facções criminosas, usar Força Nacional e Forças Armadas no combate aos grupos, isolar membros das facções e "secar a fonte de dinheiro que mantém as facções vivas" com ampliação da fiscalização sobre empresas usadas para lavagem de dinheiro.