Política
Publicado em 01/06/2026 - 11h10min
Clã controla duas prefeituras e usa verba da educação para trator e arena de vaquejada
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Clã controla duas prefeituras e usa verba da educação para trator e arena de vaquejada
Uma família de políticos liderada por Arnaldo Higino, que governa duas cidades pequenas em Alagoas, está desviando dinheiro destinado à educação para pagar agrotóxicos, manutenção de carros particulares, obras inexistentes e até para reformar uma arena privada de vaquejada.

As escolas municipais das cidades de Campo Grande e Olho D’Água Grande têm uma estrutura muito ruim. Os salários dos professores, que não foram reajustados desde 2024, estão 50% abaixo do mínimo estabelecido nacionalmente.

Apesar de não haver obras nas escolas, uma empresa de construção recebe milhões do Fundeb, o principal fundo que financia a educação básica. Os ônibus escolares estão em péssimo estado, enquanto no papel o dinheiro é aplicado em manutenção.

Os desvios aparecem nos extratos do Fundeb, com mais de 30 notas fiscais e depoimentos coletados pela Folha, que vistoriou as cidades. Somando os valores identificados pela reportagem, são pelo menos R$ 6 milhões em cinco anos.

A família Higino é conhecida na região do agreste alagoano: administra Campo Grande há mais de vinte anos e em 2021 passou a controlar também Olho D’Água Grande. As duas cidades ficam a cerca de 160 km da capital Maceió.

Arnaldo foi eleito prefeito de Campo Grande em 1992 e, a partir de 2005, apenas seus parentes ocuparam o cargo. Em 2017, Arnaldo foi preso acusado de receber propina. Seu sobrinho, Teo Higino (PSB), é o prefeito atual de Campo Grande, e sua esposa, Suzy Higino (PP), governa Olho D’Água Grande pelo segundo mandato.

A reportagem tentou contato com a família desde 12 de maio por email e telefone, além de visitar as prefeituras e secretarias de educação das cidades, mas não obteve resposta.

O pai de Arnaldo, Evânio Higino, dá nome ao Parque de Vaquejada em Campo Grande. O parque está na entrada de uma fazenda da família, que possui 700 dos quase 20 mil bois do grupo. Também existe uma escola municipal chamada Evânio Higino, que precisou adiar o início das aulas por falta de carteiras.

Enquanto a quadra da escola Evânio Higino está interditada há pelo menos dois anos por causa do telhado danificado, o Parque de Vaquejada Evânio Higino, que pertence à família, teve sua arquibancada reformada com nova cobertura neste ano.

As reformas para a arena de vaquejada foram pagas com recursos do Fundeb dessas duas cidades. A obra foi concluída em março, antes de um evento que ofereceu R$ 380 mil em prêmios.

Em 23 de janeiro, as prefeituras de Olho D’Água Grande e Campo Grande adquiriram materiais de construção, incluindo vigas metálicas perfil U e outros itens, em uma loja de Arapiraca. Cada compra, no valor de cerca de R$ 8.000, foi paga com dinheiro do fundo de educação das cidades com pouco mais de uma hora de diferença.

Esses gastos aparecem nos extratos do Fundeb, mas não há registros de obras em escolas nas duas cidades.

A Folha visitou o parque de vaquejada em 11 de maio e constatou a nova cobertura com vigas perfil U. Outro prédio ainda precisa da cobertura, e várias vigas estavam no chão aguardando instalação.

Um responsável pela obra, que preferiu não se identificar, confirmou a compra do material nas lojas Luminex e Aço Líder, mesmas citadas nos documentos fiscais e extratos do Fundeb.

Duas compras iguais, no valor de R$ 7.840 cada, foram feitas em 10 de fevereiro com recursos da educação das duas cidades. O material incluía telhas galvalume, tinta e vigas perfil U — usados na arena de vaquejada mas que faltam na quadra da escola Evânio Higino.

Desde 2021, o Fundeb pagou ao menos R$ 53,8 mil nas duas lojas. Não há indícios de irregularidade nessas lojas, que não responderam aos pedidos de esclarecimentos.

A reportagem também teve acesso a cinco notas fiscais de agrotóxicos pagos com dinheiro da educação. Em 2 de julho de 2025, Olho D’Água Grande pagou R$ 2.280 por 20 litros do herbicida Preciso XK. O herbicida Roundup Glifosato, da Monsanto, foi comprado em abril e julho de 2024. Em fevereiro do ano passado, foi feita uma compra de R$ 5.010,70 que incluiu lonas para silo.

Três lojas agrícolas receberam R$ 222 mil do Fundeb de ambas as prefeituras.

Também foram adquiridos, com recursos da educação, brita, equipamentos e pneus para carros da família, além de peças para tratores. Em 9 de setembro de 2025, por exemplo, foram adquiridas peças para tratores em Arapiraca, divididas entre as duas cidades. Uma nota fiscal foi emitida às 11h04, e outra às 11h35.

A loja Nascimento Tratores, que vende apenas peças para tratores, recebeu R$ 105 mil do Fundeb, geralmente classificados como manutenção de transporte escolar. A lei não permite usar o Fundeb para obras de infraestrutura, e há relatos que os tratores são usados nas fazendas da família.

A escola rural Apolinario G. dos Santos, localizada a menos de 15 minutos do centro de Campo Grande, não tem pátio nem portão, tem duas salas pequenas, uma cozinha e dois banheiros. Alunos de diferentes séries estudam juntos devido à falta de professores e espaço.

A professora Edivânia de França, que ensina há 28 anos, recebe R$ 3.640 por mês, enquanto o piso nacional é R$ 5.130,63. Ela diz que a escola precisa de reformas para oferecer um ambiente melhor e mais seguro para as crianças.

Ivan Ponciano, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande, afirma que os salários são provavelmente os mais baixos do estado e entre os piores do Brasil, e que as negociações são feitas com Arnaldo Higino, e não com os prefeitos das cidades.

Em Olho D’Água Grande, a reportagem encontrou duas escolas fechadas em dia letivo na comunidade de Ponta da Serra. Moradores relatam falta de horário fixo, ausência de professores e merenda escolar.

Uma das escolas, Cleonice Claudino, tem parte do teto de uma pequena sala que serve como secretaria e depósito de livros caído.

Uma construtora recebeu R$ 452 mil do Fundeb de 2025 até março deste ano. Desde 2021, as contas do fundo das duas cidades enviaram R$ 4,97 milhões para a Construtora Ambiental, sendo R$ 3,1 milhões de Olho D’Água Grande, sem registros de contratos com a educação.

O endereço da empresa é uma casa em Arapiraca onde outras três empresas também funcionam. Na visita da Folha, o local estava vazio. O dono, Jean Carlos de Oliveira e Silva, não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
(Imprensa Pública/Folha)
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