Blog Elza Amaral
Publicado em 13/01/2020 - 10h52min
A tristeza de descobrir como a modernidade atingiu suas lembranças e emoções
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Voltar ao local onde se viveu a infância e a adolescência é mergulhar em nossas lembranças e pode em algum momento, quebrar lembranças como se fossem um cristal.  Emoções emergem como se o tempo nunca tivesse passado, detalhes esquecidos surgem e vão criando um roteiro na nossa mente das brincadeiras, tristezas, escola, religiosidade, paixões, família, mortes, afeto, rejeição. São dezenas de sentimentos compartilhados ou solitários.

Numa dessas visitas, descobri que a serra que subíamos para fazer piquenique, que me parecia tão alta, perigosa, incrivelmente forte e quase inexpugnável, não é tão alta assim.Descobri que as rochas imensas que chamávamos de  lajedos, onde brincávamos em meio aos cactos, a vegetação típica do sertão, não mais existem. Tentei cavar o mais profundo dos meus arquivos mentais para lembrar das brincadeiras e dos passeios onde levávamos frutas, água e eram incrivelmente prazerosos e quentes, não são tão nítidos. Apenas momentos, alguns rostos e nomes, a paisagem, me vem à memória.

A feira aos sábados, onde minha mãe comprava colares de coquinho verde ou seco, não é em nada parecida com a feira da minha infância. Mas o que mais me chocou foi a igreja matriz da cidade. O tempo ou qualquer que tenha sido o motivo, destruiu a arquitetura original. Mas a reforma feita no interior da igreja, foi avassaladora para as minhas recordações. Não tem mais o banco que sentava com a minha mãe e numa ocasião, eu gemia de tanta dor de dente e pedia um milagre que me livrasse da dor.
O interior da igreja foi completamente modificado  e dominado por pedras de mármore. Foi como se tivesse passado uma borracha nas minhas lembranças, onde minha mãe batizou todos os filhos, onde fizemos a primeira comunhão, as aulas de catecismo, assistíamos a missa todos os domingos e nos despedimos da nossa mãe e da nossa irmã mais nova.
Não consegui ver nada naquele ambiente marmorizado que teve o poder de destruir todos as minhas lembranças. Não, aquela não era a igreja da minha infância, da minha adolescência. Não podia ser. Não consegui ver um detalhe sequer naquele ambiente, mesmo forçando a memória. O único sentimento que me dominou foi a decepção. Fazer uma reforma numa igreja que está se deteriorando, pro mais grave que seja essa deterioração, não pode simplesmente abandonar seu aspecto original e criar um outro, completamente diferente.

Milhares de pessoas foram batizadas, casaram, choraram em velórios, em missas fúnebres por seus mortos. Celebraram a vida, o amor, imploraram perdão, clemência, por milagres. Voltar ao local e descobrir que tudo foi mudado, que aquele ambiente, aquele piso, aqueles altares, não existem mais. Em seu lugar foi erguida uma arquitetura "moderna", que  ao que parece não levou em conta a história daquela comunidade.
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