Blog Elza Amaral
Publicado em 27/09/2016 - 17h59min
As mulheres precisam falar cada vez mais sobre estupro
Transformar vítima em algoz é cruel e desumano
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O resultado da pesquisa sobre a visão que temos acerca do estupro, divulgada esta semana e realizada pelo Instituto Datafolha, entre os dias 1 a 5 de agosto em 217 cidades brasileiras, com 3.615 pessoas,  mostra lamentavelmente uma sociedade que faz da vítima o seu algoz.  

Encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública,  a pesquisa conclui que mais de um terço, cerca de 37% dos entrevistados, apontam a vítima como culpada por esse tipo de crime sexual. É inacreditável que 42% dos homens opinem  que uma roupa possa ser o “ motivo” para uma mulher  ser estuprada.  Como as pessoas podem achar ainda que o visual de uma mulher dá a um homem autorização para estuprá-la?  

E fica ainda pior... a pesquisa revela  que 30% das mulheres entrevistadas, isso mesmo 30%, também responsabilizam a vítima por causa da roupa.  Qual a justificativa para esse tipo de pensamento, a não ser o moralismo, o machismo, a visão feminina de submissão?  Questionamento que precisa de respostas urgentes por parte do mundo feminino.  

Mas outra pesquisa feita pela fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e apresentada em março de 2014, que traz uma radiografia das vítimas, destaca um dado  esclarecedor e que vai no sentido contrário ao pensamento da maioria da pesquisa do Datafolha. Nada menos que metade das vítimas são crianças até 13 anos de idade,  somados com jovens e adolescentes de 14 a 17 anos (19,4% do total) crianças e adolescentes  o total sobe para mais de 70% das vítimas.  Será que foi a roupa que motivou o estupro? E a maior parte dos casos acontece dentro de casa, cometidos por conhecidos como o pai, o tio, o amigo, o padrasto.  

Precisamos ou não falar cada vez mais sobre estupro? Precisamos ou não discutir sobre vítima e algoz? Acima de tudo precisamos proteger e cuidar das vítimas e convencê-las de que não são culpadas. Estejam nuas ou cobertas, na rua ou em casa, na balada ou na igreja. E fazer os algozes entenderem que ninguém pode achar que tem direito sobre o corpo de uma mulher.  O resultado da pesquisa não pode ficar nos arquivos apenas como uma constatação. 
Foto: Arquivo pessoal


* É jornalista*
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