O resultado da pesquisa sobre a visão que temos acerca do estupro, divulgada esta semana e realizada pelo Instituto Datafolha, entre os dias 1 a 5 de agosto em 217 cidades brasileiras, com 3.615 pessoas, mostra lamentavelmente uma sociedade que faz da vítima o seu algoz.
Encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a pesquisa conclui que mais de um terço, cerca de 37% dos entrevistados, apontam a vítima como culpada por esse tipo de crime sexual. É inacreditável que 42% dos homens opinem que uma roupa possa ser o “ motivo” para uma mulher ser estuprada. Como as pessoas podem achar ainda que o visual de uma mulher dá a um homem autorização para estuprá-la?
E fica ainda pior... a pesquisa revela que 30% das mulheres entrevistadas, isso mesmo 30%, também responsabilizam a vítima por causa da roupa. Qual a justificativa para esse tipo de pensamento, a não ser o moralismo, o machismo, a visão feminina de submissão? Questionamento que precisa de respostas urgentes por parte do mundo feminino.
Mas outra pesquisa feita pela fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e apresentada em março de 2014, que traz uma radiografia das vítimas, destaca um dado esclarecedor e que vai no sentido contrário ao pensamento da maioria da pesquisa do Datafolha. Nada menos que metade das vítimas são crianças até 13 anos de idade, somados com jovens e adolescentes de 14 a 17 anos (19,4% do total) crianças e adolescentes o total sobe para mais de 70% das vítimas. Será que foi a roupa que motivou o estupro? E a maior parte dos casos acontece dentro de casa, cometidos por conhecidos como o pai, o tio, o amigo, o padrasto.
Precisamos ou não falar cada vez mais sobre estupro? Precisamos ou não discutir sobre vítima e algoz? Acima de tudo precisamos proteger e cuidar das vítimas e convencê-las de que não são culpadas. Estejam nuas ou cobertas, na rua ou em casa, na balada ou na igreja. E fazer os algozes entenderem que ninguém pode achar que tem direito sobre o corpo de uma mulher. O resultado da pesquisa não pode ficar nos arquivos apenas como uma constatação.
Foto: Arquivo pessoal

* É jornalista*